sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

XERXES I (486 - 465 a.C.)

Retrato de Xerxes no palácio de Dario, o Grande, em Perséplois

Xerxes I (cerca de 519-465 a.C.) foi rei do Império Pérsia Aquemênida (486-465 a.C.), filho de Dario I e Atossa, filha de Ciro, o Grande. O nome Xerxes é uma transliteração em grego (Ξερξης, "Xerxes") de seu nome persa após a sua ascensão ao trono, 'Khashayarshah' que significa "governante de heróis". Na Bíblia é referido como Ahashverosh geralmente aportuguesado para Assuero. G. Maspero em sua História do Egito menciona Xerxes como um homem de beleza admirável, alto e forte, mas de caráter colérico e sensual. Abaixo representação de Xerxes e seus criados em relevo do seu palácio em Persépolis.
Família
Sua rainha consorte foi Amestris, a quem a literatura grega clássica atribui um caráter terrível, e com ela teve Dario, o filho mais velho, assassinado por seu irmão Artaxerxes, Amitis, esposa do general Megabizo, Artaxerxes I, o futuro rei (465/464 - 424 aC), Histaspes, talvez sátrapa da Báctria, assassinado por Artaxerxes (c. 465 aC) e Rodoguna. De esposas desconhecidas, Xerxes foi pai de Aquêmenes, Artário, sátrapa da Babilônia, Tithraustes e Ratahshah. Segundo a Bíblia uma jovem judia chamada Hadassa foi elevada a esposa do rei persa Assuero comumente identificado com Xerxes tornando-se a rainha Ester.
Ester e o rei Assuero (Xerxes?)

Sucessor de Dario, o Grande
Os reis aquemênidas indicavam seus sucessores antes de grandes campanhas (Dario estava a organizar uma nova expedição à Grécia). Xerxes foi apontado como o sucessor de Dario I em preferência a seus irmãos mais velhos que nasceram antes de Dario se tornar rei. Coroado entre 17 de novembro e 1º de dezembro de 486 a.C. aos 36 anos, Xerxes não enfrentou nenhuma contestação de sua legitimidade ao trono quer por outros aquemênidas ou por nações sujeitas. Ele era filho da união dos dois ramos principais dos aquemênidas e neto de Ciro, o Grande, fundador do Império. Abaixo, relevo de Persépolis representando uma cena da corte aquemênida: no trono Dario I e atrás dele Xerxes como o mathišta ("o maior"), isto é, o sucessor do rei.

Xerxes herdou o maior império que o mundo havia visto até então. não é a toa que na inscrição de Gandj Nameh (Irã) ele se declara rei de um vasto império que tem todos os tipos de homens.
Inscrição de Xerxes em Gandj Nameh: "Eu sou Xerxes, o grande rei, rei dos reis,
rei dos países que  contêm todos os tipos de homens, rei nesta grande terra longe,
filho do rei Dario, um aquemênida"

A Rebelião no Egito
Representação hieroglífica do nome egípcio de Xerxes:
Jeshyresh
Em 484 Xerxes enviou Aquêmenes, seu irmão, para sufocar a rebelião no Egito iniciada em 486 ainda sob Dario I sob a liderança de certo Khabbisha que proclamara-se rei do Egito. Mas, Khabbisha, por mais que se tenha preparado, foi derrotado pelas forças superiores de Xerxes. Ao contrário de seus antecessores, Xerxes não ostentou o título de faraó assinalando assim seu caráter de soberano estrangeiro sobre a terra do Nilo. Tendo êxito, Aquêmenes foi estabelecido como sátrapa da província sobre a qual exerceu um controle muito rígido.
Vaso de Halicarnasso com o nome de
Xerxes em hieroglifos egípcios
A  Rebelião da Babilônia
Ainda em 484 Xerxes decidiu abolir o reino da Babilônia que ainda existia nominalmente sob a regência do rei persa, e levar a estátua dourada do deus Bel (Marduque ou Merodaque), a cujas mãos deveria segurar o legítimo rei da Babilônia no primeiro dia de cada ano, matando os sacerdotes que tentaram detê-lo. Xerxes, por conseguinte, não usa o título de Rei da Babilônia, como faziam seus predecessores, nos textos babilônicos datados de seu reinado, mas o Rei da Pérsia e da Média, ou simplesmente o Rei das Nações (equivalente ao Rei do mundo). Esta ação provocou duas rebeliões simultâneas lideradas por Šamaš-eriba e Bêl-šimânni em julho de 484. Ao sul da Babilônia, Bel-šimânni foi reconhecido como rei; Šamaš-eriba iniciou o seu reinado no norte, mas no final de agosto ou início de setembro, ele também ganhou o controle do sul.Talvez um líder derrotando o outro, ou talvez as duas rebeliões se mesclaram. A insurreição foi contida por Megabizo, filho do sátrapa Zópiro que fora assassinado pelos babilônios revoltosos. Abaixo, delegação de babilônios levando tributos ao Grande Rei.


Xerxes contra a Grécia
Depois de sufocar todas as revoltas e incentivado por seu primo Mardônio, Xerxes tratou de vingar a derrota sofrida por seu pai, Dario I, na batalha de Maratona, durante a Primeira Guerra Médica (490 a.C.). Abaixo, representação de um duelo entre um guerreiro persa e um guerreiro grego numa pintura do século V a.C.

Dario falhou em punir os atenienses por sua interferência na Revolta Jônica na Ásia Menor, mas Xerxes havia planejado cuidadosamente a operação de castigo. Assim, ordenou a escavação de um canal através do istmo que ligava a península do Monte Atos com o continente europeu; foram armazenadas grandes quantidades de suprimentos ao longo da rota que atravessava a Trácia e se construíram duas pontes que cruzavam o Helesponto. Abaixo, pintura que retrata Xerxes se preparando para atravessar o Helesponto,o atual estreito de Dardanelos, que separa a Ásia da Europa.

Xerxes concluiu uma aliança com Cartago, que privou os gregos da península balcânica de receber apoio dos gregos sicilianos de Agrigento e Siracusa, enquanto conseguia adesão para a causa persa de outros estados gregos como Tessália, Macedônia, Tebas e Argos. Os persas conseguiram reunir para a ocasião uma grande frota (a maior parte dos navios vieram de seus súditos fenícios e cipriotas) e um poderoso e numeroso exército formado por homens dos mais vários povos do Império Persa. Segundo Heródoto (História 7.34-35) Xerxes mandou construir uma ponte de barcos que possibilitasse seu exército atravessar o Helesponto, mas pouco depois de construída esta ponte foi destroçada por uma tempestade. O rei ficou tão furioso que mandou chicotear o mar com 300 chibatadas, a mesma que se aplicava a uma escravo extremamente rebelde. O episódio é ilustrado abaixo a partir da obra de J. Abbott sobre Xerxes.

Na primavera de 480 a.C. Xerxes deixou Sardes no comando de seu exército provocando assim a Segunda Guerra Médica contra a aliança grega de Atenas e Esparta. Em princípio, o exército persa teve vitórias importantes: a frota grega foi derrotada no cabo Artemision e depois da vitória sobre o Rei Leônidas I de Esparta e seus 300 homens na passagem das Termópilas, os persas devastaram a Beócia e a Ática, atingindo Atenas.
A Batalha das Termópilas
A cidade já havia sido evacuada por ordem de Temístocles permanecendo apenas uma guarnição na Acrópole. Vencida a guarnição, a cidade foi saqueada e seus templos incendiados. A batalha de Atenas, que pessoalmente Xerxes conduziu, é muitas vezes mal interpretada como um confronto entre gregos e persas, quando na verdade a intenção de Xerxes era punir os atenienses pela a pilhagem e destruição causada por suas forças nas cidades jônicas da Ásia Menor que estavam sob controle persa. Abaixo, súditos gregos levando tributos ao Grande Rei.É de se salientar que esta empresa teve a ajuda de outras cidades gregas, e até mesmo da Macedônia. Xerxes tomou Atenas e após um breve período de ocupação, abandonou-a já que seu interesse não estava em conquistá-la, mas em punir aqueles que o levaram a guerra contra outras cidades gregas na Ásia Menor. O fato histórico a notar, portanto, é que Xerxes não luta contra todos os gregos, nem contra a Grécia entendida como um só Estado (o que não existia na época), mas contra uma aliança de cidades gregas contra as quais contou com a ajuda de outras cidades gregas da Grécia que se aliaram ao Império Persa, ou das cidades gregas da Ásia Menor, que sofreram o ataque dos atenienses na Revolta Jônica e ajudaram de boa vontade a Xerxes. Abaixo, mapa das investidas persas contra a Grécia.
Ficheiro: Map Greco-persa Wars en.svg
Mas Xerxes foi enganado por uma astuta mensagem de Temístocles (contra os avisos de Artemísia, rainha de Halicarnasso e aliada de Xerxes) para atacar a frota grega em condições adversas a ofensiva persa ao invés de enviar alguns dos seus navios para o Peloponeso e simplesmente esperar a dissolução do exército grego depois um cerco prolongado. A batalha naval de Salamina (480 a.C.), onde a frota grega tinha se refugiado no golfo entre a Ática e a ilha de Salamina, foi ganha pela frota ateniense comandada por Euribíades, mas foi só um pequeno revés em uma campanha de sucesso para os persas na época. Abaixo, ilustração e esquema da Batalha de Salamina.

Perdida a comunicação por mar com a Ásia Menor, Xerxes decidiu voltar para Sardes; o exército que deixou na Grécia sob o comando de Mardônio foi derrotado em 479 a.C. em Plateia. A posterior derrota persa em Mícala, ao norte de Mileto, levou à liberdade das cidades gregas da Ásia Menor e da renúncia de Xerxes a elas, deixando de intrometer-se na vida política grega. Dos últimos anos do reinado de Xerxes pouco se sabe. Parece ter enfrentado outra revolta na Babilônia (480/479 a.C.). É sabido que sátrapas foram enviados para tentar a circunavegação da África, mas a vitória dos gregos na Segunda Guerra Médica deu azo a imersão gradual do Império Persa em um estado de apatia, do qual nunca mais iria despertar. O próprio rei estava envolvido em várias intrigas, muito dependente de seus cortesãos e eunucos. Os historiadores e teólogos têm datado os eventos registrados no livro de Ester nessa fase da vida de Xerxes/Assuero. Ele deixou várias inscrições em Van (Armênia), imagem abaixo, no Monte Elvend (próximo a Ecbátana) e em Persépolis onde ele tinha adicionado um novo palácio suntuoso ao que já deixara pai, Dario. Em todos estes textos simplesmente reproduziu as palavras de seu pai.
Nos últimos anos do seu reinado, Xerxes ficou sob a influência de um hircaniano de nascimento, Artabano, favorito do rei e comandante de sua guarda. Entre 4 e 8 de agosto de 465 a.C, com a ajuda do eunuco Aspamitres, Artabano assassinou Xerxes. Segundo Ctesias, matou Xerxes e, em seguida acusou o príncipe herdeiro Dario (filho mais velho de Xerxes) do assassinato instigando a Artaxerxes, um dos filhos do rei, para vingar o parricídio. As fontes clássicas não são concordes.
Ruínas do palácio de Xerxes em Persépolis
Segundo Aristóteles, Artabano matou Dario primeiro e depois o próprio rei. Por documentos encontrados em Persépolis, é sabido que em cerca de 467 a.C., dois anos antes da crise, se passou por um período de fome, e Xerxes foi obrigado a reduzir o pessoal na corte, começando com altos funcionários. Isso teria criado uma situação de descontentamento que acabaria por levar ao assassinato de Xerxes. Abaixo tumba de Xerxes I em Naqš-i Rustam.
A figura de Xerxes legou à arte um personagem trágico e poderoso revisto por vários nuances. Xerxes é o protagonista da ópera Serse do compositor barroco anglo-alemão George Frideric Handel. Foi apresentada pela primeira vez no King's Theatre em Londres em 15 de abril de 1738. A admiração posterior pela antiga Esparta e particularmente pela Batalha das Termópilas levou à interpretação de Xerxes em uma série de obras da cultura popular. Ele foi representado por David Farrar em 1962 o filme The 300 Spartans, onde ele é retratado como cruel, déspota e um comandante inapto. Ao lado Anne Wakefield (Rainha Artemísia) e David Farrar (Xerxes) em The 300 Spartans. Ele também aparece com destaque na graphic novel 300 de Frank Miller, bem como a adaptação do filme (interpretado pelo ator brasileiro Rodrigo Santoro) e na paródia do filme Meet the Spartans (interpretado pelo ator americano Ken Davitian). Abaixo, Xerxes por Frank Miller nos quadrinhos e no cinema.
Outras obras que tratam do Império Persa ou da história bíblica de Ester também mostram Xerxes como no videogame Assassin's Creed II e no filme Conquista de Reis (2006) em que Assuero (Xerxes) foi interpretado pelo ator britânico Luke Goss. Ele é o líder do Império Persa no vídeogame Civilization II (junto com Scheherazade) e III.
As várias versões de Xerxes: dos palácios persas às casas de cinema
Em 2014 Xerxes I voltou novamente às telas do cinema na pele de Rodrigo Santoro no filme 300 - A Ascensão do Império. O filme mostra como o jovem Xerxes, com feições mais iranianas, se transformou no "deus" andrógino para derrotar os gregos. Pura ficção.



REFERÊNCIAS:
http://es.wikipedia.org/wiki/Jerjes_I
http://www.livius.org/x/xerxes/xerxes.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Xerxes_I_of_Persia
http://es.wikipedia.org/wiki/Megabizo_II
http://www.livius.org/saa-san/samas-eriba/samas-eriba.html
http://www.persianempire.info/Xerxes.htm
http://www.iranica.com/newsite/
http://es.wikipedia.org/wiki/Segunda_Guerra_Médica
http://www.heritage-history.com/books/horne/greece/front1.gif
http://arjunkumarshrestha.com.np/wp-content/uploads/2012/06/bEsther.jpg
http://www.livius.org/a/iran/persepolis/xerxes/damaged_xerxes.JPG
http://www.gutenberg.org/files/28876/28876-h/files/17329/17329-h/v9b.htm
http://www.livius.org/a/1/inscriptions/Xv_hali1.jpg
http://www.cais-soas.com/CAIS/Images2/Achaemenid/Military/Battle_of_Salamis_MW.png
http://www.goodsalt.com/details/stdas0429.htmlhttp://persianrealm.com/?p=1162
http://all-things-x.blogspot.com.br/2014/03/my-300-rise-of-empire-spoiler-free.html

10 comentários:

  1. gostaria de saber se há algum registro histórico de que o rei Xerxes (Assuero) teve algum herdeiro com a rainha Ester.

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  2. Não há evidência histórica fora da Bíblia sobre a rainha Ester, o que não significa que ela e sua história não tenham existido já que a Bíblia é ela mesma, à parte de seu valor espiritual, uma grande fonte de informação histórica. A tradição judaica diz que Ester era a mãe de um rei chamado Dario, e por isso tentam identificar com Assuero com Artaxerxes I e Esther com Kosmartydene, uma das esposas reais de origem babilônica.Como o livro bíblico não menciona sobre filhos de Assuero (quer seja Xerxes I ou Artaxerxes I) não sabemos com certeza sobre isso.

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  3. Olá...Gostei bastante do site, tem várias informações, parabéns...Mas, gostaria de saber se Amestris é a Ester que relata na Bíblia?

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    1. Cara Eloíse, fico feliz que tenha gostado. Amestris não é Ester, pois Amestris era de origem persa, filha de um nobre persa chamado Otanes; já Ester é de origem judia. E segundo o testemunho histórico disponível o caráter de Amestris era terrível, não condizente com que se sabe de Ester na Bíblia.

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    2. Será que poderá ser vasti como relata na biblia?

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    3. Muito pouco se sabe sobre Vasti para que se possa identificá-la com Amestris. No Midrash, Vasti é descrita como má e vaidosa. Para outra tradição, ela é vista como uma caracterização do espírito independente de uma heroína em interpretações feministas da história da Purim.

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  4. Olá! Achei seu blog muito bom. Cheguei até ele por acaso. Acabo de ler "Criação", de Gore Vidal. Um livro espetacular que nos leva justamente para esta época de 400 AC. Decidi escrever para te indicar esta leitura. Fiquei encantada de ver aqui informações sobre Atossa, Dario, Xerxes e tantos outros que preencheram minha mente nestes dias de leituras. Você já leu "Criação"? Vale a pena!

    Cintia

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    1. NAO CONHECIA ESSA OBRA DO VIDAL. SEMPRE TIVE VONTADE DE LER "JULIANO, O APÓSTATA", MAS NÃO HOUVE OPORTUNIDADE. A CULTURA E A VIDA DOS GOVERNANTES AQUEMÊNIDAS É MUITO RICA E ESTIMULANTE. CONHECEMOS MUITO SOBRE OS IMPERADORES ROMANOS E HERÓIS GREGOS E AO LER SOBRE O IMPÉRIO PERSA DESCOBRIMOS MUITAS COISAS INTERESSANTES. BOM SABER QUE EXISTE UMA OBRA ROMANCEADA
      SOBRE O PERÍODO. GRATO.

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  5. Gostaria de saber que seculo viveu a Rainha Ester. Ela deve ter tidos filhos, mas nenhum deve ter herdado o trono. Seus descendentes devem ter se tornado parte da etnia iraniana.

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    1. Não há evidência histórica fora da Bíblia sobre a rainha Ester, o que não significa que ela e sua história não tenham existido já que a Bíblia é ela mesma, à parte de seu valor espiritual, uma grande fonte de informação histórica. Podemos datar o período da vida de Ester a partir da identificação do rei Assuero com um rei persa. a identificação tradicional é com Xerxes I, que reinou de 486 a 465 a.C. Outra identificação é com seu sucessor Artaxerxes I, que reinou de 465 a 424 a.C. De qualquer forma, Ester teria vivido no século V a.C. A tradição judaica diz que Ester era a mãe de um rei chamado Dario, e por isso tentam identificar com Assuero com Artaxerxes I e Esther com Kosmartydene, uma das esposas reais de origem babilônica.Como o livro bíblico não menciona sobre filhos de Assuero (quer seja Xerxes I ou Artaxerxes I) não sabemos com certeza sobre isso.

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